sábado, 18 de julho de 2015


Mastectomia e a praia





Quando sujeitas a uma mastectomia, a grande maioria das mulheres sente-se mutilada, inferiorizada e, consequentemente, com a sua auto-estima a atingir os valores mais baixos do universo.

Não é fácil... Acreditem que não é fácil! 

A imagem refletida no espelho muda muito... Há casos em que os parceiros das mulheres as rejeitam e nem quero imaginar o quão difícil será para elas adaptar-se a uma nova realidade(dura por si só), com a agravante de terem sido  rejeitadas pelos próprios companheiros.

No meu caso, e como já referi, fui submetida a uma mastectomia aquando de uma recidiva. Mal tinha recuperado de um cancro e, em menos de dois anos, volto a ter cancro da mama na mesma mama. 

Lembro-me, como se fosse agora, a angústia que senti quando, ao voltar da consulta em que fui informada dos procedimentos a que iria ser submetida, ao percorrer aquele corredor do hospital passei   pelas portas do bloco operatório, que se abriram ( infelizmente aquelas portas abrem-se tantas vezes) para mais uma doente entrar... Com uma revolta imensa e a voz embargada disse para o meu marido: - não acredito que isto me está a acontecer! Só de pensar que vai começar tudo outra vez!!

A minha vontade naquele momento era de fugir e me deixar entregar... Acreditem... É muito difícil passar por isto uma vez, mas a segunda custa horrores! A revolta é gigantesca e o medo apoderou-se de mim, não porque ia fazer uma mastectomia, mas pelo medo de morrer. 

Não imaginam a angústia que se sente ao olhar para os nossos filhos e pensar que os podemos ter de deixar prematuramente... Ninguém é insubstituível eu sei, mas uma mãe ou um pai são! E nem quero imaginar a dor que sentem os filhos ao verem partir um pai ou uma mãe prematuramente... Não quero imaginar a dor que se sente quando se sabe que vamos partir, sabendo que ainda tínhamos tanto para dar, tanto para fazer, tanto para assistir!

O meu grande medo era/é sobretudo esse - o de partir prematuramente... Perto desta angústia toda, se o preço a pagar era ficar sem uma mama, então isso era um mal menor!!

Quando se luta pela vida, os aspetos físicos não importam nada! 

Em todo o processo, há dois momentos que me custam muito: o tempo necessário para saber o resultado de uma biópsia e a ida ao bloco operatório. Tenho muito medo de morrer na cirurgia; é algo
que não consigo controlar, tal como o medo que se tem de aranhas ou de ficar fechado... Os tratamentos são uma cruz bem pesada, mas nessa altura estou acordada!

O que me valeu foram as intermináveis conversas que tive com a minha grande amiga de infância que é hoje psicóloga e que, todos os dias, me telefonava, dando-me dicas para eu controlar essa minha fobia ao bloco operatório. Obrigada Zizi!! Foste incansável e nunca me vou esquecer!

Bom, mas isto tudo para que percebam o porquê do aspeto físico ser secundário para mim, não se tratando, de todo, uma forma de me armar aqui em heroína! 

Depois da cirurgia tive muito medo do que eu iria sentir quando me olhasse ao espelho... Não sabia o que fazer: encarar já o meu reflexo ou adiar? 

Quem me conhece sabe a resposta! Decidi olhar-me ao espelho. Não foi uma decisão fácil e o caminho para a casa de banho foi percorrido com grandes dose de ansiedade. Decidi que me iria encarar sem médias luzes e foi o que fiz. Acendi a luz, respirei fundo e deixei de olhar para o chão. 

Quando deparei comigo, com apenas uma mama e um penso no lado esquerdo que se encontrava liso pensei: - Ok... Não é assim tão mau! Não é a melhor coisa para se ver, mas também não é a pior. Sou eu na mesma... Que falta me faz uma mama?

Provavelmente, o facto de ter o peito pequeno foi um ponto a meu favor ou então sou simplesmente pragmática e há que encarar a realidade, ponto final! 

Antes de ser submetida à mastectomia sugeriram-me fazer logo a reconstrução mamária, através de retalho... É isso mesmo - retalho! Recusei, dizendo que não queria andar a ser retalhada.

Compreendo as mulheres que querem a reconstrução e também gostaria que respeitassem as que, tal como eu, não o quiseram fazer. Posso mudar de ideias com o tempo, mas, para já, é assim que quero estar.

No primeiro dia em que fui fazer o penso, também hesitei... Quando fiz tratamentos pela primeira vez, encontrei-me com uma senhora, na casa dos 50 anos, que tinha feito mastectomia e que, em conversa, fez questão de me mostrar a sua cicatriz... Parecia um lenho de carne que foi atado com linhas grossas... A melhor comparação que posso fazer é a semelhança que aquela cicatriz tinha com a costura tosca dos sacos de serapilheira.

Face à lembrança de tal imagem, pensei que iria ver o mesmo e não sabia se iria reagir bem...Mas pronto, decidi que não ia adiar e que era a hora certa para eu ver como tinha ficado... Digo-vos que fiquei muito bem! A minha cicatriz é perfeita! É simplesmente uma linha, sem altos, sem vestígios de costuras atabalhoadas! Fiquei muito feliz e questionei a enfermeira do porquê de cicatrizes como a que eu tinha visto e como a de uma senhora com alguma idade que estava a meu lado e que eu vi através de uma brecha do biombo que nos separava.

A resposta foi inesperada, uma vez que dependia dos médicos e também da idade das senhoras... Da idade?!? Será que as senhoras, seja de que idade forem, não têm direito a poderem olhar-se ao espelho e verem uma cicatriz bonita? Uma mulher é uma mulher seja de que idade for! Todas temos direito a ser vaidosas!

É óbvio que me dei muitas vezes a reparar em algo que nunca tinha despertado a minha atenção... Sempre que via uma mulher ao longe reparava imediatamente no seu peito e decote! "Estás a começar a bater mal!" - pensei. Relativizei esta minha tendência, que, com o tempo, foi desaparecendo.

O tempo é, de facto, o nosso melhor aliado! O tempo foi passando e eis que chega o verão e, com ele, o momento de cumprir com o que prometi à minha filha mais velha - usar biquini na praia.

E lá vou eu, cheia de determinação, acompanhada da minha princesa mais velha! Os meus biquinis costumavam ser aqueles que têm copa triangular e, sem pensar muito, foram esses que decidi experimentar.

ERRADO!!!! Foi uma experiência má! Mas a minha filhota não desistiu e não me deixou desistir, pois eu já só dizia que ia andar de t-shirt na praia. Procuramos e lá encontramos uns biquinis cuja copa ajuda a disfarçar a minha mastectomia...


Biquini com copa triangular sem prótese mamária.



Como podem verificar, a prótese vê-se.


Curiosamente, não existia em nenhuma loja desta especialidade (biquinis e fatos de banho), nenhum modelo a pensar em mulheres como eu! Algo que me surpreendeu muito, pois, infelizmente, cada vez há mais casos de cancro da mama... Apesar de, provavelmente, pertencer a uma minoria de mulheres que não pretende fazer reconstrução, será que não temos direito a ir à praia e sentir-mo-nos bonitas? HELLO?!?! Senhores estilistas? Então? Onde está a vossa sensibilidade?

Expliquei à menina da loja a minha situação e questionei-a por não terem nada específico...Cheguei a ter pena dela, pois estava frustrada por não ter uma solução. Quando me senti bem com aquele tipo de biquini ela ficou tão ou mais feliz do que eu!

A minha grande dica de hoje é que todas temos direito de nos sentirmos lindas! E para quem tem o peito pequeno, como eu, talvez vos ajude ao verem a copa dos meus biquinis. Mas não desistam de procurar e não vão sozinhas!

Procurem, perguntem e façam com vos ajudem! Não se escondam!


Este tipo de copa, ligeiramente almofadada disfarça mais. 

Aqui estou com a prótese que, ao mínimo descuido, se torna visível.




Aqui está como eu uso - sem prótese!

Eu uso os meus biquinis sem a prótese mamária. Limito-me a ajeitar-me mais algumas vezes do que seria normal, pois há sempre tendência para a copa que está vazia se deslocar um pouco, mas isso não custa nada!





Não tenham preconceitos, nem sequer receiem aquele olhar de um estranho/conhecido que nos fixa indiscretamente (acreditem, já me aconteceu muitas vezes). Curiosamente, alguns desses olhares vieram de pessoas da minha localidade, que conheciam a minha luta, que até são licenciadas e que me fixaram como se eu fosse um ser do outro mundo só porque fui ver as marchas dos santos populares sem nenhum chapéu e com poucos cabelos a crescerem!!! E então?? Estar careca, pelos vistos, para alguns seres, é algo recriminável ou então digno de ser observado à lupa!!

Não se preocupem com o que os outros pensam! Sejam felizes acima de tudo; sintam-se bem! Se aqueles olhares tiverem como resultado uma palpação mais atenta daí em diante, já valeu a pena termos sido observadas! :)     

Não posso terminar este meu testemunho sem homenagear o meu marido! O amor de uma vida! Aquele que nunca moveu um músculo do seu rosto para mostrar estranheza quando viu a minha cicatriz! Aquele que diz que me ama independentemente das minhas alterações físicas!

Aquele que respondeu uma vez a alguém que o questionou como é que eu estava a reagir assim: - "Está a lutar, a fazer os tratamentos e tem uma cicatriz linda!"

 Obrigada AMOR! És grande! Foste um apoio fundamental e admiro-te muito!



agosto 2014

A imagem refletida no espelho muda muito, mas cabe-nos a nós aceitar-mo-nos e sermos felizes! Não somos menos mulheres por não termos uma ou duas mamas. A nossa felicidade está dentro de nós, da nossa essência! Aceitem-se e sejam felizes, porque o embrulho não passa disso mesmo - uma pequena capa! O importante está dentro de nós! Vivam e sejam felizes!


agosto 2014 ( meio ano após a mastectomia)




 E depois se o reflexo no espelho mudou? 





Sou tão, mas tão feliz!!!! Sou, porque estou.... aqui!!!!!